quarta-feira, 2 de março de 2022

Lucidez

Navego pela minha existência,
atravesso meandros cotidianos,
confundo-me com desarrumações,
perco-me em frases intimistas.

Canso-me de bocejos diurnos,
recordo-me dos sonhos de outrora,
amargo as novas despedidas,
concebo meras expectativas…

A cada nova tempestade oceânica,
tudo desvanece,
desatino 1/10 de lucidez,
renovo-me por necessidade.



Fragmentos

Que hipérbole que nada,
somos grãos na estrada.
Ligeiras expressões
disfarçadas de nada.

Sinestesia talvez,
doces abraços.
Sonhos de calçada:
alguns alcançados.

Chega de eufemismo,
eu sei que tudo acaba.
Já fui um pouco de tudo
e muito de quase nada.

Alguns sorrisos falam,
a arte me acalma.
No dia a dia,
palavras destrocadas.

Enquanto me assiste,
disfarço minha condição.
Pernas inquietas,
antigas abstrações.

Eu olho no relógio
Quantas horas faltam?
coisas vêm, outras vão,
algumas até se salvam.

No céu, as nuvens prometem chover
um pouco mais forte que ontem.
Feche a janela.



Paladar

janto palavras,
sonho amargo,
certas coisas são:
como devem ser.

corro até o fim,
choro salgado,
o avesso:
confesso que subtraio.

conto os meus sonhos,
provo do azedo,
bato no acidental:
sem disfarçar o medo.

vivo novos dias,
abraço o perene,
eternizo doces venturas:
discretas epifanias.

quem somos nós, afinal?
consciências?
corpos?
anseios?
pó?
átomos?
universos?
e só?


Talvez sejamos um blues:

De quando em quando,
do tipo que esboça amor,
por outras vezes,
do tipo que projeta angústia e sofrimento.

Não somos perfeitos e, tampouco, seremos.
Somos o hoje,
enquanto formos um bom blues:
que retrata verdades.

Elementos de guitarra elétrica,
refrões melancólicos,
sopros de gaita irregulares,
notas de piano sentimentais… 



Engrenagens

 prefiro um desamor sincero,

que um amor concedido em
pequenas frações,
por centos
ou décimos.
o amor não foi feito
para o depois,
não precisa
ser reivindicado.

é espontâneo:
olhares fixos
desapercebidos,
bilhetes surpresas,
bons dias
afetivos,
trilhas sonoras
que traduzem
emoções contidas…

o amor é
como a curva
de um rio:
flui naturalmente
e
faz
dobras
sinuosas,
em direção única.

embora as paixões tenham características semelhantes ao amor,
disfarçando-se do mais puro sentimento,
são,
na realidade,
como engrenagens,
com rodas dentadas ligadas
a eixos,
que se desgastam
com o tempo.

e funcionam
defei
tu osa
mente
até
perd e rem o
enc
ai
xe.

O último desabafo

há perversidades em demasia,
nas distintas esquinas da vida.
algumas são degraus;
outras alicerces (quando nos entregamos ao comodismo).

através das adversidades,
as maiores lições surgem
e os sonhos perdidos
voltam a fazer sentido.

sei que sempre existirão:
corações sinceros,
dispostos a partilhar sentimentos,
ensinamentos e singeleza.

lutar cansa,
quando não se tem propósito
e os gestos de bondade:
salvam pequenos universos.

não se rouba
a felicidade alheia,
não se vive sem fazer o bem… 

https://open.spotify.com/track/54KFQB6N4pn926IUUYZGzK


.


Presente I


com você, eu sempre me sinto imbatível,
apesar de o medo estar sempre presente:
no meu olhar, na minha fala,
nas minhas pernas…

quando o dia for embora,
só quero estar no seu coração,
ter você nos meus pensamentos
e pedir desculpas por nem sempre estar presente.

tudo anda tão desfocado e citadino:
prédios, papéis, avenidas…
espero que sejamos eternos,
durante os nossos breves momentos juntos.


https://open.spotify.com/track/6RWmQFWGsn6rRqbPmaPdFy

Metrópole.2.0.2.0.

 Muros de concreto.

Carros de papel.
Janelas sem fim.
Portas de hotel.

Mentes apagadas
no meio da fumaça.
Gente afogada
em sua própria desgraça.

Corações esfarrapados.
Linhas verticais.
Horizonte perdido.
Encontros acidentais.

Árvores abstratas.
Os envelopes não entregues.
A falta de simetria.

De mesa em mesa.
De bar em bar.
A cada novo gole
tudo vai melhorar.
De mesa em mesa
de bar em bar
a cada novo trago
tudo vai mudar.

De volta à rotina:
dias cinzas, avenidas.
O tempo sendo atropelado,
coisas esquecidas.

Dobraremos nossa dose de Rivotril
E a sanidade escorreu pelos dedos,
ninguém viu.

A poesia é assim
nestas esquinas infinitas.
O ego alimentado
e a consciência em dívida.

Vidas retraídas,
introspectivas.
A luta contra as cicatrizes
continua sempre viva.